Ver uma criança ficar rígida, apresentar abalos e não responder por alguns instantes é uma experiência muito assustadora. Mesmo assim, ações simples ajudam a reduzir riscos: proteja a criança de objetos ao redor, marque o tempo e não coloque nada em sua boca.

A convulsão febril costuma ser breve e, na maioria das vezes, não deixa sequelas. Mas toda primeira crise precisa de avaliação médica, porque a família não deve tentar distinguir sozinha uma convulsão febril de outras causas de crise.

Durante a crise: coloque a criança em local seguro, afaste objetos, vire-a de lado quando isso puder ser feito sem força, marque o tempo e não introduza nada na boca. Se durar 5 minutos, acione o SAMU 192.

O que é convulsão febril?

É uma crise convulsiva que acontece associada à febre em uma criança na faixa etária típica, sem que isso signifique automaticamente epilepsia. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) informa que costuma ocorrer entre 6 meses e 6 anos de idade.

Durante a crise, a criança pode ficar rígida, apresentar abalos nos braços e pernas, revirar os olhos e não responder. Depois, pode ficar sonolenta por algum tempo. A descrição ajuda, mas o diagnóstico depende de avaliação clínica e da investigação da causa da febre.

Uma convulsão com febre não é sempre uma convulsão febril. Meningite, alterações metabólicas, intoxicações e outras condições também podem provocar crise e precisam ser consideradas conforme idade, sintomas e exame médico.

O que fazer durante a crise

  1. Olhe o relógio. Marque o horário de início. Durante o susto, uma crise curta pode parecer muito mais longa.
  2. Proteja contra quedas e batidas. Coloque a criança no chão, cama baixa ou outra superfície segura e afaste móveis, objetos duros e pontiagudos.
  3. Deixe de lado. Quando for possível sem conter os movimentos, posicione a criança de lado, com o rosto voltado lateralmente, para facilitar a saída de saliva ou vômito.
  4. Afrouxe roupas apertadas. Principalmente ao redor do pescoço.
  5. Observe respiração e cor. Mudanças transitórias podem acontecer, mas dificuldade respiratória persistente ou coloração arroxeada exigem socorro imediato.
  6. Permaneça junto. Depois que os abalos cessarem, mantenha a criança em local seguro e observe sua recuperação.

Se outra pessoa estiver presente, peça que ligue para o socorro enquanto você protege a criança. Um vídeo curto pode ajudar a equipe médica somente se outra pessoa puder gravar sem atrasar cuidados nem expor a criança.

O que não fazer

  • Não segure braços ou pernas e não tente parar os movimentos à força.
  • Não coloque dedos, colher, pano ou qualquer objeto na boca. A criança não engole a língua, e essa tentativa pode causar ferimentos ou obstruir a respiração.
  • Não ofereça água, alimento ou medicamento pela boca enquanto ela estiver convulsionando ou sonolenta.
  • Não dê banho durante a crise e não use álcool, gelo ou compressas frias para tentar interrompê-la.
  • Não faça respiração boca a boca durante os abalos se a criança estiver respirando. Após a crise, se ela não respirar normalmente, siga as orientações do SAMU 192.
  • Não administre medicamento de resgate que não tenha sido prescrito especificamente para aquela criança e explicado pelo médico.

Quando chamar o SAMU 192

A American Academy of Pediatrics (AAP) orienta tratar como emergência uma crise que não cessa em 5 minutos. O Ministério da Saúde inclui crises convulsivas entre as situações para acionar o SAMU 192.

Chame imediatamente se:

  • a crise atingir 5 minutos ou você não souber quando começou;
  • a criança tiver dificuldade para respirar, permanecer arroxeada ou não recuperar a respiração normal;
  • os movimentos ocorrerem apenas em uma parte do corpo;
  • houver mais de uma crise no mesmo episódio de febre;
  • a criança não recuperar progressivamente a consciência;
  • houver rigidez de nuca, manchas arroxeadas na pele, vômitos repetidos, fraqueza em um lado do corpo ou estado geral muito comprometido;
  • a criança tiver menos de 6 meses, mais de 6 anos ou condição neurológica conhecida;
  • existir suspeita de intoxicação, trauma ou ingestão de medicamento.

Se estiver sozinho e a crise continuar, ligue para o 192 no viva-voz. Siga as orientações do médico regulador.

Precisa ir ao médico depois que a crise acaba?

Sim. Na primeira crise, procure avaliação de urgência mesmo que a criança pareça recuperada. A equipe precisa confirmar a natureza do episódio, examinar a criança e investigar a causa da febre.

Se a criança já teve convulsão febril e possui plano de orientação definido pelo pediatra, siga esse plano. Ainda assim, procure atendimento quando o episódio for diferente dos anteriores, prolongado, focal, repetido ou acompanhado de sinais de alerta.

Relate duração aproximada, temperatura medida, sintomas que vieram antes, medicamentos usados, vacinação, doenças recentes e como foi a recuperação. Não atrase o socorro para medir temperatura ou gravar vídeo.

Antitérmico evita nova convulsão?

Não há garantia. Antitérmicos podem aliviar desconforto, mas não impedem de forma confiável a convulsão febril. A SBP recomenda tratar o desconforto da criança e não perseguir apenas um número no termômetro.

Use antitérmico somente conforme orientação médica e dose calculada para o peso. Não alterne medicamentos, antecipe doses nem dê remédio durante a crise. Métodos físicos frios podem aumentar desconforto e não são recomendados para controlar febre.

Convulsão febril causa lesão cerebral?

As convulsões febris simples são geralmente benignas. Segundo a SBP e a AAP, a maioria das crises breves não causa lesão cerebral nem problemas neurológicos de longo prazo. Isso não elimina a necessidade de avaliar o primeiro episódio e reconhecer crises com características diferentes.

Também não significa que a criança tenha epilepsia. Epilepsia envolve crises recorrentes não provocadas; convulsão febril ocorre no contexto de febre. O médico avalia história, desenvolvimento e características do episódio para orientar cada família.

Pode acontecer novamente?

Algumas crianças apresentam outra convulsão em episódios febris futuros, especialmente quando eram menores no primeiro episódio ou há histórico familiar. Não é possível prever com certeza quem terá recorrência.

Para famílias que já passaram por isso, vale pedir ao pediatra um plano escrito: como agir, quando chamar o 192 e se existe indicação individual de medicamento de resgate. Medicamentos preventivos não devem ser iniciados por conta própria.

Em resumo

Durante uma crise, proteja a criança, vire-a de lado sem conter os movimentos, marque o tempo e não coloque nada na boca. Acione o SAMU 192 se a crise atingir 5 minutos ou houver dificuldade respiratória, recuperação incompleta, movimentos focais, repetição ou outros sinais de alerta.

Convulsões febris breves costumam ter boa evolução, mas a primeira crise precisa de avaliação médica. Este conteúdo é educativo e não substitui atendimento de urgência nem avaliação individual.


Fontes consultadas

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e Infectologia. Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses. Documento Científico nº 206, 15 maio 2025. Acessar documento.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial. Febre: cuidado com a febrefobia. Publicado/atualizado em jan. 2023. Acessar orientação.
  • Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192. Acessar orientação.
  • American Academy of Pediatrics (AAP). Di Giovine M, Catenaccio E. Febrile Seizures in Children. HealthyChildren.org. Atualizado em 5 dez. 2025. Acessar orientação.