Quando a criança acorda à noite dizendo que as pernas doem, é natural se preocupar. Muitas famílias ouvem a expressão dor de crescimento, mas o nome pode enganar: crescer, por si só, não causa dor. Trata-se de um padrão de dor recorrente em membros que precisa ser reconhecido com cuidado.

O mais importante não é dar um rótulo em casa. Observe quando a dor aparece, onde dói, se a criança manca e como está na manhã seguinte. Essas pistas ajudam o pediatra a distinguir um quadro habitual de situações que precisam de investigação.

O que é a chamada dor de crescimento?

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) explica que o termo descreve dores recorrentes, geralmente nas pernas, em crianças e adolescentes. Apesar do nome popular, não há relação demonstrada com o crescimento do corpo. A dor relatada pela criança é real, mesmo quando o exame está normal.

Não há uma causa única estabelecida. Algumas crianças referem mais incômodo após dias muito ativos, mas isso não significa que brincar ou praticar atividade física faça mal. A história clínica e o exame físico são fundamentais para avaliar cada caso, sem reduzir toda queixa de dor a uma explicação simples.

Como costuma ser o padrão típico?

Segundo o Departamento Científico de Reumatologia da SBP, o incômodo costuma atingir coxas, panturrilhas ou canelas, em ambas as pernas ou alternando de lado. Surge no fim do dia, à noite ou durante o sono, e desaparece pela manhã. A criança geralmente brinca e caminha normalmente durante o dia.

O padrão pode variar de uma noite para outra. A dor pode ser forte o bastante para acordar a criança, mas não costuma causar inchaço, vermelhidão, limitação persistente ou dificuldade para andar. Dor localizada em uma articulação, como joelho ou tornozelo, merece atenção diferente da dor difusa nos músculos das pernas.

O Sociedade Brasileira de Pediatria também descreve o desaparecimento pela manhã como parte do padrão habitual. Isso não confirma o diagnóstico sozinho; serve como uma informação útil para contar na consulta.

O que fazer durante um episódio?

Acolha a queixa sem dizer que é imaginação ou exagero. Pergunte onde dói e observe se existe febre, lesão, inchaço ou dificuldade para apoiar o pé. Quando a criança está bem no restante do tempo e não há sinais de alerta, massagem suave e calor local podem proporcionar conforto. Proteja a pele do contato direto com objetos quentes.

Uma conversa tranquila e uma rotina de descanso também ajudam a criança a lidar com o desconforto. Evite iniciar medicamentos ou suplementos por conta própria, ou repetir analgésicos para mascarar dor frequente. Se os episódios se repetem, combine com o pediatra a melhor conduta para aquela criança.

Quais sinais pedem avaliação?

Procure o pediatra se a dor acontece somente em uma perna ou braço, aparece ao acordar, persiste durante o dia, atrapalha brincadeiras, faz a criança mancar ou se concentra em uma articulação. Inchaço, vermelhidão, febre, perda de peso ou ínguas também não devem ser atribuídos automaticamente à chamada dor de crescimento.

O SBP orienta buscar avaliação quando a criança não quer andar, manca, apresenta cansaço incomum, redução do apetite ou perda de peso. Se não consegue apoiar a perna, está muito abatida ou tem febre associada a dor intensa e articulação inchada, procure atendimento com urgência.

Uma queda ou trauma recente também muda a avaliação. Não espere a dor 'passar com o crescimento' quando ela piora, limita movimentos ou vem acompanhada de outros sintomas.

Como o pediatra investiga?

O pediatra pergunta sobre início, local, duração e horário da dor, episódios anteriores, atividades, traumas e sintomas associados. Também observa a marcha e examina músculos, ossos e articulações. Anotar o que ocorreu em cada episódio pode ajudar a lembrar detalhes importantes.

Conforme a SBP, não existe exame único que confirme a dor recorrente benigna. Quando história e exame são típicos e não há sinais de alerta, exames complementares geralmente não são necessários. Se houver achados fora do padrão, o profissional pode indicar exames ou encaminhamento conforme a suspeita clínica.

Leve suas dúvidas à consulta. Este material é educativo, não identifica a causa da dor de uma criança específica e não substitui avaliação individual.

Referências bibliográficas

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Dor recorrente em membros ou dor de crescimento – abordagem diagnóstica e terapêutica (Agosto de 2024). Acessar fonte oficial. Acesso em 2026-09-18.
  2. Sociedade Brasileira de Pediatria. Isso é dor de crescimento ou algo mais sério? (6 de agosto de 2019). Acessar fonte oficial. Acesso em 2026-09-18.
  3. American Academy of Pediatrics. Growing Pains Are Normal Most Of The Time (Atualizado em 2013). Acessar fonte oficial. Acesso em 2026-09-18.