A febre assusta porque é visível, mensurável e costuma aparecer de repente. Mas ela não é uma doença: é um sinal de que o organismo está reagindo a alguma agressão, geralmente uma infecção. O número no termômetro importa, porém não conta a história inteira. O comportamento, a respiração, a hidratação e a idade da criança ajudam muito mais a definir a urgência.

O que é febre?

O documento científico mais recente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) considera febre, em geral, a temperatura axilar igual ou superior a 37,5 °C. O valor pode variar ao longo do dia e ser influenciado pelo ambiente, por excesso de roupas e por atividade física. Por isso, a medida deve ser interpretada junto com o contexto e os sintomas.

Febre não é o mesmo que hipertermia. Na febre, o organismo eleva de forma regulada seu ponto de temperatura como parte da resposta inflamatória. Na hipertermia, o corpo acumula calor por fatores externos ou por dificuldade de dissipá-lo, como em ambiente excessivamente quente. Suspeita de insolação ou exposição a calor intenso exige avaliação urgente.

Como medir em casa

Para uso domiciliar, a SBP recomenda a medição axilar com termômetro digital, método simples, seguro e menos sujeito a interpretações do que tocar a testa. Antes de medir:

  • aguarde a criança descansar se acabou de brincar, tomar banho ou ficar muito agasalhada;
  • seque a axila e coloque a ponta do aparelho em contato direto com a pele;
  • mantenha o braço encostado ao corpo até o sinal do termômetro;
  • anote horário, valor medido e sintomas associados para acompanhar a evolução.

Faixas adesivas na testa e a percepção pela mão não substituem o termômetro. Aparelhos infravermelhos também podem sofrer interferências de técnica e ambiente.

Observe a criança, não apenas o número

A intensidade da febre, isoladamente, não determina se a infecção é viral ou bacteriana nem mede a gravidade. Uma criança com temperatura mais alta, mas alerta, interagindo e aceitando líquidos, pode estar em condição melhor do que outra com temperatura menor, muito sonolenta ou com esforço para respirar.

Durante a observação, verifique se a criança:

  • acorda, olha, reconhece e interage como de costume;
  • respira sem esforço, gemência ou retração entre as costelas;
  • aceita leite, água ou outros líquidos adequados à idade;
  • urina em frequência próxima do habitual e mantém boca úmida;
  • apresenta dor importante, vômitos repetidos, rigidez de nuca, convulsão ou manchas arroxeadas.

O que pode ajudar em casa

  • Ofereça líquidos com frequência. Mantenha o aleitamento materno e, nas crianças maiores, ofereça água e os líquidos habituais em pequenas quantidades.
  • Use roupas leves e deixe o ambiente confortável, sem agasalhar excessivamente.
  • Priorize o conforto. Antitérmico pode ser indicado quando há desconforto evidente, irritabilidade, redução da atividade ou dificuldade para dormir — não apenas para fazer o termômetro voltar ao “normal”.
  • Siga a orientação individual do pediatra. A dose depende do peso, da idade, da formulação e das condições clínicas da criança.

Banhos frios, compressas geladas ou fricção com álcool não são recomendados. Métodos físicos podem aumentar calafrios e irritabilidade, com pouco benefício duradouro.

Evite alternar antitérmicos por conta própria

A SBP não recomenda combinar ou alternar antitérmicos de rotina. Essa prática não oferece benefício clínico claro e aumenta o risco de confundir horários, repetir doses ou causar intoxicação. Também não use antibiótico apenas porque há febre: ele trata infecções bacterianas específicas e só deve ser prescrito após avaliação.

Antitérmicos não impedem convulsão febril. Se a criança convulsionar, coloque-a de lado em local seguro, não introduza objetos na boca, observe o tempo do episódio e procure atendimento de emergência.

Quando procurar atendimento sem demora

Procure avaliação médica imediata se houver:

  • bebê com menos de 3 meses e temperatura de 38 °C ou mais, mesmo que pareça bem;
  • dificuldade para respirar, lábios arroxeados ou esforço visível no tórax;
  • sonolência incomum, dificuldade para acordar, confusão ou resposta reduzida;
  • convulsão, rigidez de nuca, dor intensa ou manchas roxas que surgiram com a febre;
  • vômitos repetidos, recusa persistente de líquidos ou sinais de desidratação;
  • doença crônica relevante, imunidade comprometida ou piora progressiva do estado geral.

Também converse com o pediatra quando a febre persiste, volta após uma melhora ou vem acompanhada de sintomas que preocupam a família. Em pediatria, a evolução do quadro e a percepção de que “esta criança não está como sempre” merecem atenção.

Em resumo

Meça corretamente, registre a evolução e observe o estado geral. Hidrate, mantenha conforto e evite perseguir um número com vários medicamentos. A febre costuma acompanhar doenças autolimitadas, mas idade pequena e sinais de comprometimento exigem avaliação rápida. Este conteúdo é educativo e não substitui exame médico.


Fontes consultadas

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e Infectologia. Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses. Documento Científico nº 206, 15 maio 2025. Acessar documento.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial. Febre: cuidado com a febrefobia. Atualizado em janeiro de 2023. Acessar orientação.
  • American Academy of Pediatrics (AAP). Fever: When to Call the Pediatrician. HealthyChildren.org, atualizado em 2 dezembro 2022. Acessar orientação.
  • American Academy of Pediatrics (AAP). Pantell RH et al. Evaluation and Management of Well-Appearing Febrile Infants 8 to 60 Days Old. Pediatrics. 2021;148(2):e2021052228. Acessar diretriz.