Uma criança que diz “não consigo” pode estar pedindo ajuda, expressando frustração ou tentando contar algo que foi difícil. Nem sempre a melhor resposta é apressar um elogio. Às vezes, o primeiro passo é escutar e entender o que aquela experiência significou para ela.

Apoiar a autoestima não exige uma rotina perfeita nem um discurso pronto. No cotidiano, há oportunidades de reconhecer o esforço, acolher sentimentos e oferecer espaço para aprender com apoio. O objetivo não é garantir que a criança se sinta confiante o tempo todo, mas cuidar da relação e de como ela é ouvida.

Como começar pela escuta?

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda incentivar a expressão emocional e ouvir com atenção, sem interromper. Também orienta criar um espaço seguro de diálogo, com linguagem compreensível e sem julgamentos.

Na prática, isso pode começar com uma pergunta simples: “O que foi mais difícil para você?”. Antes de explicar como resolver, tente compreender a resposta. Uma dificuldade na tarefa, um conflito com colegas e o receio de errar podem exigir conversas diferentes.

Se não for possível conversar naquele momento, combine uma oportunidade de retomar e procure cumprir o combinado. As frases sugeridas aqui são exemplos de comunicação, não técnicas que garantem uma resposta ou um resultado.

Como reconhecer o esforço sem olhar só o resultado?

Na orientação sobre autoestima, a SBP destaca valorizar conquistas e qualidades, reconhecendo o esforço tanto quanto os resultados. Isso permite conversar sobre o caminho percorrido, em vez de limitar tudo à nota, à vitória ou ao produto final.

Por exemplo, diante de um desenho, você pode comentar: “Vi que você experimentou outras cores” ou perguntar: “Qual parte gostou de fazer?”. Em uma tarefa difícil, “percebi que você tentou de outro jeito” descreve algo que aconteceu, sem exigir que a criança seja sempre a melhor.

Não é preciso elogiar cada ação nem fingir que toda tentativa saiu como ela queria. É possível reconhecer a dedicação e, quando necessário, oferecer ajuda para o próximo passo. O reconhecimento pode ser concreto e verdadeiro.

Acolher sentimentos significa concordar com tudo?

Não. A SBP orienta acolher as emoções sem minimizar ou ridicularizar. Reconhecer que uma situação trouxe tristeza ou raiva não exige concordar com qualquer atitude que veio depois.

Uma forma de conversar é separar o sentimento da ação: “Entendo que ficou frustrado. Vamos pensar no que fazer agora?”. Se houve um problema a resolver, ele continua podendo ser abordado com respeito. A escuta não precisa eliminar os limites.

Evite transformar uma conversa difícil em discussão sobre quem tem o sentimento “certo”. Primeiro procure entender o relato; depois, ajude a organizar o que pode ser feito. Isso não significa que o adulto precise acertar sempre. Quando a conversa não sai bem, é possível retomá-la.

Como oferecer autonomia com apoio?

No mesmo documento, a SBP recomenda envolver a criança em pequenas responsabilidades adequadas à sua idade, permitir decisões simples e dar espaço para que tente resolver desafios. O apoio do adulto continua presente, sem que ele precise fazer tudo por ela.

Escolher entre roupas disponíveis, ajudar a organizar materiais ou participar de uma tarefa da casa são exemplos que podem ser adaptados à compreensão e às possibilidades da criança. Não são uma lista de obrigações para todas as famílias.

Observe o que ela consegue fazer e onde precisa de ajuda. Autonomia não é abandoná-la diante de uma dificuldade nem exigir independência antes de estar pronta. A proposta é oferecer participação possível e acompanhar o aprendizado.

O que cabe na rotina da família?

A SBP sugere valorizar o tempo compartilhado com brincadeiras, jogos, passeios ou tarefas feitas em conjunto, além de oportunidades culturais e criativas. Também recomenda contato com a escola, mesmo quando os responsáveis não conseguem participar de todas as reuniões.

Não é necessário transformar essa orientação em uma agenda cheia ou em mais uma cobrança. A própria fonte recomenda equilibrar obrigações, descanso e tempo livre, evitando sobrecarregar a criança com atividades.

  • Procure um momento possível para uma atividade compartilhada, sem meta de desempenho.
  • Converse com a escola sobre o que a criança vive no cotidiano, não apenas sobre notas.
  • Quando fizer sentido, conte brevemente como você lidou com uma dificuldade, deixando espaço para voltar ao relato dela.
  • Considere as condições reais da família ao combinar mudanças.

Esses exemplos traduzem as orientações da SBP para o cotidiano. Não são uma medida da qualidade do cuidado oferecido nem uma garantia de que não haverá inseguranças ou frustrações.

Quando procurar ajuda?

Se a preocupação com o bem-estar da criança persiste ou se a família percebe sofrimento que não consegue compreender, vale conversar com o pediatra. Leve exemplos do que ela tem dito, das situações em que se sente mal e do que mudou na convivência ou na escola.

A SBP também chama atenção para isolamento, mudanças de comportamento e tristeza frequente entre os sinais que podem aparecer quando uma criança sofre bullying. Esses sinais não confirmam a causa sozinhos: precisam ser compreendidos no contexto. Se houver suspeita de violência entre colegas, procure escutar a criança e conversar com a escola e a equipe de saúde.

Uma fala como “não consigo” ou um dia de frustração não permite concluir que exista um transtorno. Da mesma forma, oferecer mais elogios não substitui avaliação quando há sofrimento importante. O cuidado começa por compreender a situação, em vez de escolher um rótulo.

Este artigo oferece orientação geral e não substitui avaliação individual. Acompanhar a criança inclui escutar seus sentimentos, considerar sua realidade e buscar apoio quando necessário.

Referências

  1. Crenzel, Gabriela. Sociedade Brasileira de Pediatria. Grupo de Trabalho de Saúde Mental. Questões sobre Saúde Mental na Infância. Pediatria para Famílias. Publicado/atualizado: novembro de 2025, conforme o corpo do documento. Seções sobre promoção da autoestima, autonomia, organização da rotina e sinais de bullying. Disponível em: sbp.com.br — Questões sobre Saúde Mental na Infância. Acesso em: 28 de outubro de 2026.