Seu filho contou uma história que não aconteceu ou negou algo que você acabou de ver? Antes de chamar a criança de “mentirosa”, vale entender o que está por trás daquela fala. Imaginação, receio da reação dos adultos e outras dificuldades podem aparecer de maneiras diferentes.

Ensinar honestidade não exige humilhar nem abrir mão de limites. É possível conversar sobre o que aconteceu, oferecer segurança para contar a verdade e ajudar a criança a assumir responsabilidades. A proposta é cuidar da confiança enquanto ela aprende.

Fantasia e mentira são a mesma coisa?

Nem toda história inventada tem a intenção de enganar. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) explica que, na infância, algumas narrativas fazem parte da imaginação e da fantasia. Quando a mentira se torna frequente e intencional, a orientação é prestar atenção e procurar compreender sua motivação.

Essa diferença pede contexto, não um interrogatório. Uma história contada durante uma brincadeira não precisa receber a mesma interpretação de uma informação falsa usada repetidamente para evitar uma situação. A observação do episódio, da forma como a criança o conta e do que acontece ao redor ajuda a organizar a conversa.

Evite transformar uma atitude em uma identidade: “essa informação não corresponde ao que aconteceu” descreve uma situação; “você é mentiroso” define a criança por ela. O foco educativo pode permanecer no comportamento que precisa mudar.

O que vale tentar compreender?

Na orientação da SBP, vale investigar se a criança tenta evitar punição, conseguir atenção ou lidar com insegurança. São possibilidades para compreender o contexto, e não conclusões automáticas sobre cada caso.

Em vez de decidir de antemão por que ela falou aquilo, experimente abrir espaço: “Quero entender o que aconteceu” ou “Você ficou com receio de me contar?”. A resposta pode não vir imediatamente. Escutar não significa concordar com uma informação falsa; significa reunir condições para orientar com mais clareza.

Também observe o que costuma acontecer quando ela admite um erro. Se contar a verdade sempre termina em uma reação intensa, vale rever a maneira de conduzir essas conversas. A SBP alerta que punições severas podem resultar em mais mentiras.

Como conversar sem humilhar?

A SBP recomenda evitar reações exageradas, valorizar a verdade e construir um ambiente de confiança. Uma forma prática de traduzir essa orientação é conversar com calma, sem expor a criança diante de outras pessoas.

  • Descreva o que você sabe. “O brinquedo ficou danificado” é um ponto de partida mais claro do que acusações sobre o caráter da criança.
  • Convide a contar. “Vamos entender juntos?” permite começar a conversa sem exigir uma confissão diante de todos.
  • Reconheça a sinceridade. “Obrigado por me contar; agora vamos cuidar do que aconteceu” valoriza a verdade sem apagar a responsabilidade.
  • Evite ameaças. A conversa pode ser firme e respeitosa ao mesmo tempo.

Essas frases são exemplos de comunicação, não uma fórmula que garante determinada resposta. Cada família pode adaptá-las à compreensão da criança e à situação.

Como manter limites e reparar?

Acolher o sentimento não exige dizer que tudo está resolvido. A orientação da SBP combina paciência, diálogo e firmeza. Você pode reconhecer que foi difícil contar e, ainda assim, explicar qual atitude precisa mudar.

Quando houver algo concreto a reparar, proponha uma ação relacionada ao ocorrido e compatível com o que a criança consegue fazer com apoio. Se ela desorganizou materiais, por exemplo, vocês podem cuidar da organização juntos. A ideia é ensinar responsabilidade, sem usar a vergonha como instrumento.

Evite prometer que nunca haverá consequências se ela disser a verdade. É mais honesto explicar que você vai ouvir e ajudar a lidar com o problema. A sinceridade pode ser valorizada mesmo quando é necessário retomar um combinado.

Qual é o papel do exemplo dos adultos?

A SBP destaca a importância de mensagens coerentes sobre honestidade. Além de pedir que a criança fale a verdade, vale observar como os adultos lidam com os próprios erros no cotidiano.

Se você deu uma informação incorreta ou prometeu algo que não poderá cumprir, pode reconhecer isso de maneira simples: “Eu me enganei” ou “Não vou conseguir fazer o que combinei; vamos conversar sobre isso”. Não é preciso transformar a conversa em uma cobrança sobre quem errou mais.

Também vale abrir espaço para sentimentos que nem sempre são confortáveis. Ouvir “estou com medo” ou “não gostei” sem ridicularizar é uma oportunidade de praticar diálogo. O objetivo é construir confiança ao longo das interações, não exigir perfeição da criança ou dos responsáveis.

Quando procurar ajuda?

Se as mentiras são frequentes e intencionais, a SBP orienta prestar atenção às motivações. Converse com o pediatra quando o padrão se repete, quando você não consegue compreender o contexto ou quando a situação traz dificuldades importantes à convivência. Leve exemplos concretos e conte como os adultos têm reagido.

Uma fala isolada não permite concluir que exista um transtorno. A avaliação considera a criança e sua realidade; não se resume a escolher um rótulo para o comportamento.

Este artigo oferece orientação geral e não substitui avaliação individual. Quando houver necessidade, o pediatra pode ajudar a organizar o cuidado e avaliar se é indicado apoio adicional.

Referências

  1. Crenzel, Gabriela. Sociedade Brasileira de Pediatria, Grupo de Trabalho de Saúde Mental. Questões sobre Saúde Mental na Infância. Pediatria para Famílias. Publicado/atualizado: novembro de 2025, conforme o corpo do documento. Seção “Mentir é um comportamento comum? Como agir quando as crianças mentem de forma sistemática?” e orientações sobre diálogo e autoestima. Disponível em: sbp.com.br — Questões sobre Saúde Mental na Infância. Acesso em: 23 de outubro de 2026.