Uma criança pode aprender sobre cuidado ao ajudar a organizar uma brincadeira, regar uma planta ou perceber que alguém ficou triste. Essas situações não precisam virar uma aula ou uma prova de bom comportamento: podem ser oportunidades de conversar e participar.
Incentivar a empatia envolve mais do que pedir “coloque-se no lugar do outro”. É possível oferecer experiências de colaboração e ajudar a criança a compreender os sentimentos envolvidos, com apoio e linguagem adequada, sem exigir respostas perfeitas.
O que é empatia?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) descreve empatia como a capacidade de compreender os sentimentos de outra pessoa, colocar-se em seu lugar e responder de forma acolhedora.
A orientação destaca tanto a compreensão da perspectiva do outro quanto a dimensão emocional dessa experiência. Na prática, não se trata apenas de saber repetir uma frase sobre gentileza: o cuidado pode ser exercitado em situações concretas da convivência.
Um episódio isolado não permite definir a criança como “sem empatia”. Diante de uma dificuldade, vale compreender o que aconteceu e o que ela entendeu da situação, sem transformar o comportamento daquele momento em um rótulo.
Por que criar experiências de cuidado?
A SBP recomenda não apenas falar sobre sentimentos, mas criar oportunidades para ações de cuidado e colaboração no dia a dia. A criança pode participar e, depois, conversar sobre como aquela ajuda foi percebida.
Um exemplo apresentado pela fonte é organizar brinquedos junto de um irmão. A atividade permite conversar sobre cooperação e perguntar como o outro pode ter se sentido ao receber ajuda. O foco é ligar a experiência aos sentimentos envolvidos.
Isso não significa que toda tarefa vá produzir uma mudança imediata ou que exista uma fórmula para ensinar empatia. As oportunidades precisam fazer sentido para a criança e para a rotina da família.
O que pode caber no cotidiano?
Entre as possibilidades, a SBP cita cuidado com animais de estimação, atividades de solidariedade e pequenas tarefas compartilhadas. Esses exemplos podem ser adaptados às capacidades da criança e ao apoio disponível.
- Ajudar a organizar brinquedos ou um espaço usado em conjunto.
- Participar de uma tarefa simples relacionada ao cuidado de um animal, com o adulto responsável.
- Separar roupas com a família para uma doação.
- Ajudar a preparar algo para compartilhar com pessoas próximas.
- Regar plantas ou colaborar na organização de uma área comum.
São exemplos de participação, não uma lista de obrigações. Não é necessário ter um animal, comprar materiais ou organizar uma atividade especial para começar. Uma situação simples de colaboração pode oferecer espaço para a conversa.
O adulto continua responsável pela segurança e pela adequação da tarefa. Incentivar a participação não significa entregar à criança um cuidado que ela ainda não consegue assumir.
Como conversar sobre os sentimentos envolvidos?
Depois de uma experiência compartilhada, a SBP sugere dialogar sobre o que aconteceu. Você pode perguntar: “Como acha que ele se sentiu quando você ajudou?” ou “O que ficou mais fácil quando fizemos juntos?”.
Escute a resposta sem transformar a conversa em um teste com uma única frase correta. Se a criança não souber dizer, o adulto pode ajudar a pensar nas possibilidades: alguém pode ter sentido alívio, alegria ou gratidão, por exemplo. Esses são exemplos de conversa, não conclusões obrigatórias sobre o que outra pessoa sentiu.
A fonte também recomenda acolher emoções sem minimizar ou ridicularizar e usar linguagem compreensível. Falar sobre o sentimento do outro não exige desconsiderar o que a própria criança está vivendo.
Evite usar uma atividade de ajuda para provocar vergonha. O objetivo é compreender e participar, não comparar a criança com alguém considerado “mais bondoso”.
E quando a criança magoa alguém?
A convivência também traz situações difíceis. Na orientação sobre como agir quando uma criança pratica bullying, a SBP recomenda ouvir, compreender o contexto e evitar julgamentos imediatos. A fonte ressalta que consequências devem ter caráter educativo e proporcional.
Esse cuidado não exige ignorar o que aconteceu. É possível explicar que uma atitude machucou alguém, escutar o relato da criança e ajudá-la a pensar sobre responsabilidade. A pergunta “Como você se sentiria se isso acontecesse com você?” aparece entre os exemplos da SBP para estimular reflexão.
Ao mesmo tempo, não é adequado chamar qualquer conflito de bullying ou presumir que uma conversa resolva uma situação de violência. Se houver repetição ou preocupação com o convívio, procure compreender o contexto com a escola e a equipe de saúde.
Uma reparação precisa estar ligada ao ocorrido e ao que a criança consegue compreender. Não transforme o pedido de desculpas em uma apresentação para os adultos sem espaço para conversar sobre o que precisa mudar.
Como oferecer apoio sem rotular a criança?
A SBP recomenda dar espaço para pequenas responsabilidades e para a tentativa de resolver desafios, com apoio do adulto. Isso ajuda a organizar uma participação possível, em vez de exigir independência ou uma resposta emocional que a criança não consegue oferecer naquele momento.
Se a atividade ficou difícil, reveja a proposta e a ajuda necessária. Uma recusa isolada não é uma medida da qualidade do cuidado familiar nem permite concluir que exista um transtorno.
Quando as dificuldades de convivência são persistentes, trazem sofrimento ou preocupam a família e a escola, vale conversar com o pediatra. Leve exemplos do que aconteceu e das situações em que a criança precisa de mais apoio, sem chegar com um rótulo pronto.
Este artigo oferece orientação geral e não substitui avaliação individual. Incentivar empatia e cooperação pode começar em experiências simples, com presença, conversa e respeito às possibilidades da criança.
Referências
- Crenzel, Gabriela. Sociedade Brasileira de Pediatria. Grupo de Trabalho de Saúde Mental. Questões sobre Saúde Mental na Infância. Pediatria para Famílias. Publicado/atualizado: novembro de 2025, conforme o corpo do documento. Seções sobre desenvolvimento da empatia, cooperação, responsabilidades e abordagem educativa de conflitos. Disponível em: sbp.com.br — Questões sobre Saúde Mental na Infância. Acesso em: 4 de novembro de 2026.