Tristeza, frustração e dias difíceis fazem parte da vida. Depressão é diferente: envolve uma mudança persistente no humor ou uma perda importante de interesse e prazer, acompanhada de outros sintomas e de prejuízo na rotina.

Em crianças e adolescentes, o sofrimento nem sempre aparece como choro ou como a frase ‘estou triste’. Irritabilidade, isolamento, queda no rendimento, queixas físicas ou abandono de atividades antes prazerosas podem ser formas de expressão. Observar sem rotular e abrir espaço para conversa são passos importantes.

O que é depressão?

Depressão é um transtorno de saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um episódio depressivo envolve humor deprimido — que pode incluir tristeza, vazio ou irritabilidade — ou perda de interesse e prazer na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas. Outros sintomas e um impacto significativo no funcionamento também fazem parte da avaliação.

Isso não significa que qualquer tristeza com duas semanas seja depressão. Luto, conflitos, violência, bullying, dificuldades escolares, doenças clínicas e outros transtornos podem produzir sintomas parecidos ou coexistir. O diagnóstico exige avaliação individual.

Importante: depressão não é fraqueza, falta de gratidão, preguiça nem “drama”. Também não pode ser confirmada por um teste on-line ou por um sinal isolado.

Quais sinais podem aparecer?

Os sinais variam conforme idade, desenvolvimento e contexto. A atenção deve se voltar principalmente para mudanças persistentes em relação ao jeito habitual da criança ou adolescente, como:

  • tristeza, vazio, apatia ou irritabilidade frequente;
  • perda de interesse por brincadeiras, amigos, esportes ou outras atividades de que gostava;
  • isolamento ou redução marcante da convivência;
  • cansaço, pouca energia ou lentidão;
  • agitação incomum ou inquietação;
  • mudanças importantes no sono ou no apetite;
  • dificuldade de concentração, indecisão ou queda no desempenho escolar;
  • sentimentos intensos de culpa, inutilidade, fracasso ou desesperança;
  • queixas físicas repetidas, como dor de cabeça ou dor abdominal, sem explicação suficiente;
  • falas sobre morte, desejo de desaparecer, autoagressão ou suicídio.

Nas crianças menores, irritabilidade, agressividade, recusa escolar e queixas físicas podem chamar mais atenção do que a tristeza verbalizada. Na adolescência, mudanças de humor podem ocorrer durante o desenvolvimento, mas perda persistente de prazer, desesperança, prejuízo e risco de autoagressão não devem ser tratados como “fase”.

Como diferenciar depressão de uma fase difícil?

Não existe uma regra doméstica que substitua avaliação. Alguns elementos aumentam a necessidade de procurar ajuda:

  • persistência: a mudança se mantém na maior parte dos dias, em vez de melhorar após pouco tempo;
  • abrangência: afeta mais de uma área, como casa, escola, amizades, sono ou autocuidado;
  • prejuízo: a criança deixa de fazer atividades, perde rendimento ou sofre para cumprir a rotina;
  • intensidade: há desesperança, culpa intensa, isolamento marcante ou falas sobre morte;
  • mudança em relação ao habitual: família, escola ou a própria criança percebem que algo está diferente.

Um acontecimento difícil pode explicar tristeza e, ainda assim, a criança precisar de cuidado. Ter uma causa compreensível não torna o sofrimento menos real nem exclui depressão.

Como conversar sem aumentar a pressão?

  • Escolha um momento calmo e diga o que observou, sem acusar: “Percebi que você deixou de encontrar seus amigos e parece sem energia. Como tem se sentido?”
  • Escute antes de oferecer soluções. Evite interromper, minimizar ou comparar com problemas de outras pessoas.
  • Leve falas sobre morte ou autoagressão a sério. Perguntar de forma direta e acolhedora sobre segurança não incentiva o comportamento; ajuda a entender o risco e buscar proteção.
  • Evite frases como “você tem tudo”, “é falta de esforço” ou “anime-se”. Elas podem aumentar culpa e silêncio.
  • Explique que pedir ajuda não é punição e que a criança participará das decisões de modo adequado à idade.
  • Se a primeira conversa não avançar, mantenha disponibilidade e procure orientação profissional.

Como é feita a avaliação?

A avaliação é clínica e considera desenvolvimento, história de saúde, rotina, relações, escola, eventos recentes, sono, uso de medicamentos ou substâncias e segurança. O profissional conversa com responsáveis e também com a criança ou adolescente, respeitando idade, privacidade e necessidade de proteção.

Pediatra, psiquiatra da infância e adolescência e psicólogo podem participar do cuidado. Conforme o caso, informações da escola e de outros profissionais ajudam a entender o funcionamento em diferentes ambientes.

Questionários podem apoiar o rastreamento e o acompanhamento, mas não fecham diagnóstico sozinhos. Também podem ser necessários exame físico ou exames complementares para investigar condições clínicas que causam ou agravam sintomas. A avaliação deve considerar ansiedade, TDAH, transtorno bipolar, trauma, uso de substâncias, violência, dificuldades de aprendizagem e outras possibilidades.

Se a depressão for confirmada, como é o cuidado?

O plano depende da idade, intensidade, prejuízo, risco, condições associadas e contexto familiar. Pode incluir psicoterapia, orientação à família, ajustes de suporte na escola, fortalecimento de rotina e, em alguns casos, medicamento prescrito e acompanhado por médico com experiência no cuidado infantojuvenil.

Não existe uma única abordagem para todos. Medicamentos não devem ser iniciados, interrompidos ou ajustados por conta própria. O acompanhamento regular é importante para revisar segurança, resposta, efeitos adversos e necessidades da família.

Sono regular, atividade física apropriada, alimentação, vínculo familiar e redução de isolamento apoiam a recuperação, mas não substituem tratamento quando há depressão. Cobranças por produtividade ou uma rotina cheia de tarefas também não tratam o transtorno.

Como família e escola podem ajudar?

  • reduzir julgamentos e manter comunicação previsível;
  • preservar uma rotina possível, com metas pequenas e realistas;
  • favorecer contato seguro com pessoas de confiança, sem forçar exposição;
  • combinar com a escola apoio temporário quando concentração, frequência ou rendimento estiverem afetados;
  • proteger a criança de bullying, violência e humilhação;
  • guardar medicamentos, armas, pesticidas e outros meios potencialmente letais em local inacessível;
  • acompanhar consultas e manter os profissionais informados sobre mudanças importantes.

A escola pode acolher, registrar mudanças e colaborar com o plano de cuidado, mas não deve diagnosticar, expor o estudante ou transformar confidências em assunto público.

Quando buscar ajuda?

Procure o pediatra ou um profissional de saúde mental infantil quando tristeza, irritabilidade, perda de interesse ou outras mudanças persistirem, causarem sofrimento ou prejudicarem escola, amizades, autocuidado ou convivência. Não é preciso esperar o quadro ficar grave para pedir avaliação.

Procure atendimento imediato se houver fala sobre suicídio, plano ou tentativa, autoagressão, despedidas incomuns, acesso a meios letais, alucinações, agitação extrema, confusão ou incapacidade de manter a criança em segurança. Não deixe a pessoa sozinha e reduza o acesso a meios de lesão. Ligue para o SAMU 192 ou vá a uma UPA, pronto-socorro ou hospital. O CVV atende pelo 188 como apoio emocional, mas não substitui atendimento de emergência.

Pelo SUS, a Unidade Básica de Saúde é uma porta de entrada para o cuidado. Em situações de sofrimento psíquico intenso, os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i) atendem crianças e adolescentes; a rede local pode orientar o serviço disponível.

Em resumo

Depressão em crianças e adolescentes pode aparecer como tristeza, irritabilidade, perda de interesse, isolamento, queixas físicas e mudanças no sono, apetite, energia ou rendimento. O que importa é o conjunto, a persistência, o prejuízo e a segurança.

Escutar sem julgamento, levar sinais de risco a sério e organizar avaliação profissional são atitudes protetoras. Depressão tem cuidado, e buscar ajuda cedo reduz tempo de sofrimento. Este conteúdo é educativo e não substitui consulta ou avaliação individual.


Fontes consultadas

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. Depressão na infância e adolescência. Documento Científico, 2019. Acessar documento.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Departamento Científico de Medicina do Adolescente. Como estão emocionalmente os nossos adolescentes? Alerta aos Pediatras. Documento Científico nº 202, 29 abr. 2025. Acessar documento.
  • World Health Organization (WHO). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. Genebra: WHO, 2024. ISBN 978-92-4-007726-3. Acessar publicação.
  • Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Brasília: Ministério da Saúde. Acessar orientação.
  • Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Brasília: Ministério da Saúde. Acessar orientação.