Poucas questões dividem tanto os pais quanto a chupeta. Há quem defenda com unhas e dentes, quem nunca tenha dado, e quem esteja tentando tirar e não consiga. A Sociedade Brasileira de Pediatria tem orientações claras sobre o tema — e elas são mais equilibradas do que "dá" ou "não dá".

Quando a chupeta tem indicação

A SBP reconhece as seguintes situações em que a chupeta pode ser benéfica:

  • Redução do risco de morte súbita (SIDS): estudos mostram associação entre o uso da chupeta durante o sono e menor risco de morte súbita do lactente. A AAP inclui essa orientação em suas diretrizes desde 2005
  • Analgesia em procedimentos: a sucção não nutritiva com chupeta, especialmente associada à solução de glicose, reduz a percepção de dor em recém-nascidos durante procedimentos como punção de calcâneo
  • Alívio em bebês muito agitados nos primeiros meses, quando outras estratégias não foram suficientes

Chupeta e amamentação: como conciliar

A principal preocupação sobre a chupeta nos primeiros meses é a chamada confusão de bico: o bebê pode aprender a sugar de forma diferente (mais passiva, sem esforço) e ter dificuldade de pegar o seio corretamente. Por isso, a SBP orienta:

  • Oferecer a chupeta somente após a amamentação estar bem estabelecida — geralmente a partir das 3 a 4 semanas de vida
  • Não oferecer chupeta quando o bebê der sinais de fome — primeiro oferecer o seio
  • Se o bebê rejeitar, não insistir

Riscos do uso prolongado

Quando o uso se estende além dos 12 a 18 meses, os riscos aumentam:

  • Alterações na oclusão dentária: mordida aberta anterior (dentes de frente sem se tocar), protrusão dos incisivos superiores. Em geral reversíveis se a chupeta for retirada antes dos 3 anos
  • Otites de repetição: o uso frequente da chupeta aumenta a pressão negativa na tuba auditiva e pode facilitar o acúmulo de líquido no ouvido médio
  • Interferência na fala: uso intenso pode reduzir o tempo de prática de sons e palavras
  • Dificuldade crescente para tirar: quanto mais tempo, mais difícil

Como e quando tirar

A SBP orienta retirada gradual a partir dos 12 meses, com meta de suspensão completa antes dos 24 meses. Estratégias que funcionam:

  • Reduzir progressivamente os momentos de uso (primeiro tirar de dia, depois da soneca, por último da noite)
  • Criar uma "história" que faça sentido para a criança (fada da chupeta, doação para bebês menores)
  • Oferecer alternativas de conforto: abraço, objeto transicional, rotina previsível
  • Evitar situações de estresse durante o processo (mudanças, doenças, irmão novo chegando)

Não há método único que funcione para todas as crianças. Consistência e paciência são mais importantes do que a estratégia escolhida.


Fontes consultadas:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — Departamento Científico de Aleitamento Materno e de Odontopediatria: Uso de Chupetas e Bicos de Mamadeiras — Nota de Alerta.
  • AAPSIDS and Other Sleep-Related Infant Deaths (2022).
  • Sexton S, Natale R. — Risks and benefits of pacifiers (American Family Physician, 2009).