A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) afeta entre 1% e 5% das crianças, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria — e é muito mais frequente entre 2 e 8 anos, quando adenoides e amígdalas estão no seu maior tamanho proporcional. Diferentemente dos adultos, a apneia infantil nem sempre se apresenta com o ronco clássico — e pode se esconder por trás de sintomas que parecem nada ter a ver com o sono.
O que é apneia do sono?
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando a via aérea se obstrui repetidamente durante o sono, interrompendo o fluxo de ar por pelo menos 10 segundos. Em crianças, as causas mais comuns são:
- Hipertrofia de adenoides e amígdalas
- Obesidade
- Malformações craniofaciais (micrognatia, fissura palatina)
- Hipotonia muscular (como na Síndrome de Down)
Sinais noturnos que merecem atenção
- Ronco intenso e frequente (mais de 3 noites por semana)
- Pausas respiratórias observadas pelos pais — seguidas de engasgos ou recomposição brusca da respiração
- Respiração pela boca durante o sono
- Sono muito agitado, com muitas mudanças de posição
- Sudorese excessiva durante o sono
- Enurese noturna (volta a molhar a cama depois de já ter aprendido)
Sinais diurnos — os que mais confundem
A apneia em crianças raramente se apresenta como sonolência diurna (como nos adultos). Os sinais diurnos mais comuns são:
- Hiperatividade e dificuldade de concentração — frequentemente confundidos com TDAH
- Irritabilidade e instabilidade emocional
- Dificuldades de aprendizado e memória
- Comportamento opositor
- Respiração bucal durante o dia
Estudos mostram que crianças com SAOS não tratada têm pior desempenho em testes de memória, atenção e funções executivas — e que o tratamento melhora esses parâmetros.
Como o diagnóstico é feito?
O padrão-ouro é a polissonografia — um exame de sono realizado em laboratório que monitora respiração, saturação de oxigênio, frequência cardíaca e movimentos durante a noite. Em crianças, o diagnóstico é confirmado quando o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) é maior que 1 evento por hora de sono.
O pediatra avalia os sintomas e encaminha para otorrinolaringologista e/ou pneumologista pediátrico quando necessário.
Tratamento
O tratamento depende da causa:
- Adenoamigdalectomia: cirurgia de retirada de adenoides e amígdalas — resolve em 70 a 90% dos casos em crianças sem outras comorbidades
- CPAP: aparelho de pressão positiva contínua — indicado quando a cirurgia não é suficiente ou não é possível
- Perda de peso: em crianças com obesidade, essencial como parte do tratamento
- Corticoide nasal + antihistamínico: pode ajudar em casos leves associados à rinite e hipertrofia adenoidal moderada
Fontes consultadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — Departamento Científico de Sono: Apneia Obstrutiva do Sono na Criança (2023).
- SBP — Manual de Orientação: Sono na Infância e Adolescência (2023).
- AAP — Clinical Practice Guideline: Diagnosis and Management of Childhood Obstructive Sleep Apnea Syndrome (2012, revisado 2020).