Catapora, ou varicela, costuma ser lembrada como uma doença comum da infância. Embora muitos casos sejam leves, ela pode causar infecção bacteriana da pele, pneumonia, complicações neurológicas e quadros mais graves em pessoas vulneráveis. A vacinação reduz o risco da doença e, sobretudo, de suas complicações.
Uma dúvida frequente surge ao comparar calendários: o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomendam duas doses, mas em idades diferentes. Isso não significa que um deles esteja “errado”. São calendários com estratégias distintas, e a caderneta deve ser avaliada conforme vacinas já recebidas, idade, condições de saúde e disponibilidade.
O que é catapora e por que vacinar?
A varicela é uma infecção muito contagiosa causada pelo vírus varicela-zóster. Segundo o Ministério da Saúde, as lesões costumam surgir em diferentes fases: manchas, elevações, pequenas bolhas e crostas podem aparecer ao mesmo tempo. Febre, mal-estar e coceira também podem ocorrer.
A transmissão começa antes de as lesões ficarem evidentes e continua até que todas estejam em crosta. Por isso, esperar aparecer uma “catapora forte” para afastar a criança não impede todas as exposições. Vacinação em dia é a principal medida preventiva individual.
Mesmo criança vacinada pode, raramente, desenvolver varicela, mas o quadro tende a ser mais leve. Nenhuma vacina oferece proteção absoluta; seu benefício inclui reduzir doença, transmissão e complicações.
Quando o SUS oferece a vacina contra varicela?
O Calendário Nacional de Vacinação 2026 estabelece duas doses de rotina para a população geral:
- 15 meses: primeira dose contra varicela; pode ser usada a vacina monovalente ou, conforme disponibilidade e histórico, a tetraviral;
- 4 anos: segunda dose contra varicela.
Para crianças que perderam a idade ideal, o PNI orienta atualizar o esquema o mais cedo possível até 6 anos, 11 meses e 29 dias, considerando o histórico vacinal e a história da doença. Povos indígenas e algumas situações profissionais ou clínicas seguem recomendações específicas.
A ausência da caderneta não deve impedir a busca pelo serviço. A equipe pode consultar registros disponíveis, reconstruir o histórico e orientar o que precisa ser feito. Não aplique dose extra apenas por dúvida sem avaliação.
O que a SBP recomenda?
O Calendário de Vacinação da SBP 2026/2027, elaborado para crianças e adolescentes saudáveis, também recomenda duas doses, mas antecipa o esquema:
- 12 meses: primeiras doses das vacinas tríplice viral e varicela, separadas, ou vacina tetraviral;
- 15 meses: segunda dose, preferencialmente com a tetraviral, respeitando intervalo mínimo de três meses.
A SBP observa maior frequência de febre quando a tetraviral é usada como primeira dose em lactentes, em comparação com tríplice viral e varicela aplicadas separadamente. Escolha do produto e momento devem ser discutidos com o serviço de vacinação.
Rede pública e rede privada podem trabalhar com produtos e idades diferentes. O objetivo não é misturar calendários por conta própria, mas assegurar duas doses válidas no momento adequado. O profissional deve conferir nome da vacina, data, idade na aplicação e intervalo.
E se a criança estiver com a vacina atrasada?
Esquema atrasado geralmente é completado, não reiniciado. Quantidade e intervalo dependem da idade e das doses válidas já registradas. No PNI, crianças de 1 a 12 anos que precisam de duas doses devem respeitar intervalo recomendado de três meses. A partir de 13 anos, o intervalo recomendado é de oito semanas, com mínimo de quatro semanas em situações excepcionais avaliadas pelo serviço.
Se a criança teve catapora confirmada, informe isso na triagem. Quando a história é incerta, apenas lembrar de “algumas bolinhas” não confirma a doença. Fotos antigas, prontuário e avaliação clínica podem ajudar, mas não substitua essa análise por teste ou decisão caseira.
Leve à consulta ou à sala de vacina:
- caderneta e comprovantes de vacinação;
- informação sobre catapora anterior e quando ocorreu;
- lista de medicamentos e tratamentos recentes;
- histórico de alergia grave após vacina;
- diagnósticos que afetem a imunidade.
Quem precisa de avaliação especial antes de vacinar?
A vacina contra varicela contém vírus vivo atenuado. O PNI a contraindica durante a gestação, em crianças menores de 9 meses, em pessoas imunodeprimidas — salvo indicações específicas — e após reação de hipersensibilidade grave a dose anterior ou componente da fórmula.
Isso não significa que toda criança com doença crônica esteja impedida de receber a vacina. Algumas precisam de avaliação no Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), ajuste do momento ou outra estratégia. Informe ao serviço se a criança usa corticoide em dose alta, quimioterapia, imunobiológico ou outro tratamento que reduza a imunidade.
Transfusão recente, plasma ou imunoglobulina podem alterar o intervalo recomendado. Também é preciso organizar o momento em relação a outras vacinas vivas: o calendário do PNI permite aplicação no mesmo dia; quando não forem aplicadas simultaneamente com tríplice viral ou febre amarela, o serviço deve observar intervalo apropriado.
Quais reações podem acontecer?
Dor, vermelhidão ou inchaço no local, febre e pequenas lesões semelhantes às da varicela podem ocorrer após a vacinação. Em geral, são transitórios. O profissional da sala de vacina deve explicar o que observar e como registrar um evento suspeito.
Procure avaliação se houver febre persistente, piora importante do estado geral, muitas lesões, sinais de infecção da pele ou qualquer sintoma que preocupe. Reação grave imediata, com falta de ar, inchaço de língua ou garganta, palidez intensa, desmaio ou coloração arroxeada, exige atendimento de urgência.
O PNI orienta não usar medicamentos com ácido acetilsalicílico (AAS) nos 45 dias após a vacina. Antitérmicos não devem ser usados preventivamente sem orientação. Se a criança já usa AAS por indicação médica, converse com a equipe antes da aplicação; não suspenda tratamento por conta própria.
Houve contato com alguém com catapora: o que fazer?
Avise o serviço de saúde rapidamente, sobretudo se a criança não foi vacinada, tem esquema incompleto, é menor de 1 ano, está imunodeprimida ou convive com gestante ou pessoa imunodeprimida. A conduta depende do tempo desde o contato e do risco individual.
O PNI prevê vacinação de bloqueio em até 120 horas após a exposição para pessoas elegíveis. Para grupos que não podem receber a vacina, imunoglobulina específica pode ser indicada em prazo menor. Essas decisões são médicas e não devem ser adiadas à espera de sintomas.
Se a criança já estiver com suspeita de catapora, mantenha-a afastada de escola, creche, gestantes, recém-nascidos e pessoas imunodeprimidas até avaliação. Não fure bolhas e não ofereça AAS. Lave as mãos, mantenha unhas curtas e procure orientação sobre cuidado da pele e coceira.
Quando buscar atendimento urgente?
Na suspeita de catapora, procure avaliação mais rápida quando houver:
- dificuldade para respirar, dor no peito ou coloração arroxeada;
- sonolência intensa, confusão, convulsão, fraqueza ou dificuldade para caminhar;
- dor de cabeça forte com vômitos repetidos ou rigidez de nuca;
- febre persistente ou que retorna após melhora;
- pele muito vermelha, quente, inchada, dolorosa ou com secreção;
- lesões próximas aos olhos ou alteração visual;
- recusa persistente de líquidos, pouca urina ou outros sinais de desidratação;
- doença em recém-nascido, gestante ou pessoa imunodeprimida.
Em dificuldade importante para respirar, perda de consciência, convulsão prolongada ou outro risco imediato, acione o SAMU 192.
Em resumo
Vacina contra catapora faz parte da proteção de rotina. O SUS recomenda doses aos 15 meses e aos 4 anos; a SBP recomenda aos 12 e 15 meses. Ambas as estratégias buscam completar duas doses, mas não devem ser combinadas sem conferir validade e intervalos.
Leve a caderneta à unidade de saúde ou ao pediatra, especialmente se houver atraso, dúvida sobre doença anterior, tratamento que altere a imunidade ou contato recente com caso de varicela. Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.
Referências bibliográficas
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Imunizações. Calendário de Vacinação da SBP — Atualização 2026/2027. Documento Científico nº 56, 28 jul. 2026. Acessar documento oficial. Acesso em 4 set. 2026.
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Instrução Normativa que instrui o Calendário Nacional de Vacinação 2026. Brasília: Ministério da Saúde; 2026. Acessar publicação oficial. Acesso em 4 set. 2026.
- Brasil. Ministério da Saúde. Catapora (Varicela). Saúde de A a Z. Acessar orientação oficial. Acesso em 4 set. 2026.
- Brasil. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação — Criança. Atualizado em 29 jul. 2026. Acessar calendário oficial. Acesso em 4 set. 2026.