A constipação intestinal afeta entre 10% e 25% das crianças em algum momento da infância, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. É uma das queixas mais frequentes nas consultas pediátricas — e também uma das mais mal compreendidas. Muitos pais se preocupam sem necessidade; outros ignoram sinais que merecem atenção.

O que define constipação de verdade?

Contar quantos dias sem evacuar não é suficiente. O diagnóstico usa os Critérios de Roma IV, que avaliam o conjunto dos sintomas. Para crianças acima de 4 anos, dois ou mais destes critérios por pelo menos dois meses:

  • Duas ou menos evacuações por semana
  • Fezes endurecidas, em cíbalos (pelotas) ou muito volumosas
  • Dor ou esforço excessivo para evacuar
  • Sensação de evacuação incompleta
  • Retenção voluntária (a criança "segura" com medo de doer)
  • Escape fecal involuntário na roupa (encoprese)

Uma criança que evacua todo dia com fezes muito duras pode estar constipada. Outra que vai ao banheiro a cada três dias com fezes macias e sem desconforto provavelmente está dentro do normal.

Por que a constipação acontece?

Na grande maioria dos casos (mais de 90%), a constipação é funcional — sem causa orgânica identificável. Os principais gatilhos:

  • Ingestão insuficiente de líquidos e fibras
  • Treinamento esfincteriano: a criança pode associar o vaso a situações desconfortáveis e passar a reter
  • Episódio doloroso anterior: uma fissura anal dolorosa instala o ciclo de retenção — a dor leva a segurar, que endurece as fezes, que dói mais
  • Mudanças de rotina: início da escola, viagens, troca de casa
  • Dieta pobre em fibras e sedentarismo

Fibras e líquidos: a base do manejo

A SBP recomenda que a ingestão diária de fibras seja de aproximadamente idade em anos + 5 gramas por dia. Para uma criança de 5 anos, isso equivale a cerca de 10 g/dia. Boas fontes para incluir no cardápio:

  • Frutas com casca (maçã, pera, ameixa, mamão, kiwi)
  • Legumes (cenoura, abobrinha, brócolis, couve-flor)
  • Leguminosas (feijão, lentilha)
  • Aveia e cereais integrais

Água é igualmente essencial: sem hidratação adequada, as fibras não funcionam — e podem até agravar o quadro.

Quando procurar o pediatra com urgência

Alguns sinais podem indicar causa orgânica e merecem avaliação médica sem demora:

  • Constipação desde as primeiras semanas de vida
  • Ausência de mecônio nas primeiras 48 horas após o nascimento
  • Sangue nas fezes além de pequenos traços por fissura
  • Fezes muito finas ("em fita")
  • Distensão abdominal importante
  • Constipação associada à falta de crescimento

Esses sinais podem sugerir doença de Hirschsprung, hipotireoidismo, doença celíaca ou outras condições que precisam de investigação específica.

Laxantes: quando e como

Em casos de constipação crônica ou com retenção fecal intensa, o pediatra pode indicar laxantes osmóticos — como o polietilenoglicol (PEG 3350 ou 4000) — por um período determinado. Não use laxantes sem orientação médica em crianças. A escolha do agente, da dose e da duração deve ser individualizada pelo médico, levando em conta a idade e a gravidade do quadro.


Fontes consultadas:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — Departamento Científico de Gastroenterologia Pediátrica: Guia Prático de Atualização — Constipação Intestinal em Crianças e Adolescentes (2022).
  • Critérios de Roma IV para distúrbios gastrointestinais funcionais pediátricos (Hyams et al., 2016).
  • AAPEvaluation and Treatment of Constipation in Infants and Children (2023).