Quando uma criança não responde ao ser chamada, pede para repetir frases ou demora a desenvolver a fala, é comum pensar primeiro em distração, comportamento ou “falta de atenção”. A audição também precisa entrar nessa conversa. Algumas alterações são temporárias, outras permanentes, e nenhuma delas deve ser concluída apenas pela observação em casa.

Ouvir participa do acesso à fala, à linguagem, às brincadeiras e à aprendizagem. Ao mesmo tempo, crianças surdas ou com deficiência auditiva são crianças inteiras, capazes de se comunicar e se desenvolver quando recebem acesso oportuno à linguagem, apoio e recursos adequados. O objetivo da avaliação não é rotular: é entender como cada criança percebe sons e garantir caminhos de comunicação.

Resposta curta: procure avaliação se a criança não reage a sons como esperado, responde melhor quando vê o rosto, aumenta muito o volume, fala pouco ou de modo difícil de entender, parece “desligar” na escola ou se a família tem qualquer dúvida sobre audição. Ter passado no teste da orelhinha não exclui alterações que apareçam depois.

Por que acompanhar a audição durante a infância?

A audição pode mudar ao longo do crescimento. O Guia para Realização da Triagem Auditiva Neonatal e Seguimento Assistencial do Ministério da Saúde, publicado em 2025, orienta acompanhar audição e linguagem mesmo depois de um resultado satisfatório na triagem. Havendo suspeita em qualquer idade, a criança deve ser encaminhada para avaliação audiológica.

A American Academy of Pediatrics (AAP) também recomenda vigilância contínua, porque algumas mudanças auditivas surgem ou progridem depois do período neonatal. Identificação oportuna permite oferecer acesso à linguagem falada, à Libras ou a uma combinação de estratégias conforme necessidades da criança e decisões informadas da família.

O que é o teste da orelhinha?

A Triagem Auditiva Neonatal, conhecida como teste da orelhinha, é um rastreamento simples, indolor e não invasivo. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde orienta realizá-lo preferencialmente nas primeiras 24 a 48 horas, ainda na maternidade, e no máximo durante o primeiro mês de vida quando a condição clínica permitir.

No Brasil, a Lei nº 12.303/2010 tornou obrigatória a realização gratuita das emissões otoacústicas evocadas em hospitais e maternidades nas crianças nascidas nesses serviços.

Triagem não é diagnóstico. Resultado “passa” indica que as respostas estavam adequadas naquele momento e naquele método. Resultado “falha” também não confirma deficiência auditiva: líquido, ruído, movimento ou outras condições podem interferir. O reteste e, quando indicado, a avaliação diagnóstica devem ocorrer no prazo orientado pelo serviço, sem abandonar o seguimento.

Quais sinais observar em bebês e crianças pequenas?

Desenvolvimento varia entre crianças, e um sinal isolado não fecha diagnóstico. Merecem conversa com o pediatra e avaliação da audição:

  • não se assustar ou não reagir a sons intensos;
  • não procurar de onde vem a voz ou outro som;
  • perceber a pessoa apenas quando ela entra no campo de visão;
  • responder a alguns sons, mas não a outros;
  • não responder de forma consistente ao nome;
  • atraso, interrupção ou regressão no desenvolvimento da fala e da linguagem;
  • fala difícil de entender para a fase do desenvolvimento;
  • depender muito de gestos, leitura do rosto ou aumento de volume para compreender.

A AAP, em orientação atualizada em março de 2026, destaca que não responder quando chamado pode ser confundido com desatenção ou oposição. Audição, linguagem, interação e desenvolvimento precisam ser avaliados em conjunto.

Quais sinais podem aparecer na idade escolar?

Em crianças maiores, a dificuldade pode ficar mais evidente em ambientes com ruído, fala rápida ou várias pessoas conversando. Observe se a criança:

  • pede repetição com frequência ou responde algo sem relação com a pergunta;
  • olha fixamente para o rosto de quem fala para entender;
  • aumenta muito o volume de televisão, jogos ou fones;
  • parece ouvir melhor de um lado;
  • tem dificuldade nova para seguir instruções orais;
  • apresenta mudança no desempenho escolar sem causa clara;
  • relata zumbido, ouvido abafado, dor ou sons distorcidos;
  • fica exausta, irritada ou evita situações que exigem muita escuta.

Esses comportamentos podem ter outras explicações, como sono insuficiente, dificuldades de linguagem, atenção, ansiedade ou ambiente inadequado. Por isso, não atribua o quadro a “preguiça” nem conclua uma condição específica sem avaliação.

Passar no teste da orelhinha elimina problemas futuros?

Não. A criança pode ter passado na triagem ao nascer e desenvolver mudança auditiva depois. Infecções, alterações do ouvido médio, exposição a ruído, algumas condições genéticas, meningite, traumatismo craniano e certos tratamentos podem exigir acompanhamento específico.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) ressalta o papel do pediatra na identificação precoce e no diagnóstico. Bebês que passaram por terapia intensiva neonatal ou apresentam outros indicadores de risco seguem protocolos próprios de monitoramento. Leve relatório de alta e resultados anteriores às consultas.

O que pode causar dificuldade auditiva?

Algumas causas afetam a condução do som no ouvido externo ou médio. Cerume em excesso, líquido atrás do tímpano, otite e alterações anatômicas são exemplos. Essas mudanças podem ser temporárias, mas ainda assim prejudicar a escuta enquanto persistem.

Outras alterações envolvem ouvido interno, nervo auditivo ou processamento das informações sonoras. Podem estar presentes desde o nascimento ou aparecer depois. Nem sempre existe histórico familiar. O tipo, o grau, um ou ambos os ouvidos e a estabilidade ao longo do tempo só podem ser definidos por avaliação apropriada.

Importante: não pingue óleo, álcool, água oxigenada, leite materno ou receitas caseiras no ouvido. Não use cotonete dentro do canal e não dê antibiótico ou descongestionante por conta própria.

Como é feita a avaliação auditiva?

O percurso pode começar no pediatra, que revisa desenvolvimento, infecções, medicamentos, antecedentes familiares, internações e preocupações da família. O exame observa canal auditivo e tímpano. Depois, fonoaudiólogo e otorrinolaringologista selecionam testes adequados à idade e à capacidade de participação.

Entre os exames possíveis estão emissões otoacústicas, potenciais evocados auditivos, timpanometria e audiometria comportamental. Bebês e crianças que ainda não conseguem responder a comandos também podem ser avaliados. Nenhum teste deve ser escolhido ou interpretado isoladamente pela família.

A Linha de Cuidado de Puericultura do Ministério da Saúde orienta encaminhar crianças com alteração na triagem para serviços especializados de saúde auditiva, Centros Especializados em Reabilitação ou profissionais habilitados conforme rede local.

O que a família pode fazer enquanto aguarda avaliação?

  • fale de frente, em distância confortável e com boa iluminação;
  • reduza ruído de televisão e conversas simultâneas;
  • não grite nem teste a criança com sustos repetidos;
  • use frases claras, gestos e recursos visuais sem transformar comunicação em prova;
  • avise escola ou creche e peça que a criança fique perto de quem fala;
  • anote situações em que a resposta muda, mas não adie consulta para reunir “provas”;
  • leve caderneta, teste da orelhinha e exames anteriores ao atendimento.

Se a dificuldade auditiva for confirmada, equipe e família constroem um plano individual. Pode incluir tratamento da causa, acompanhamento, tecnologia assistiva, fonoaudiologia, apoio escolar e acesso à Libras. Não existe uma solução única para todas as crianças.

Como proteger a audição no dia a dia?

  • mantenha volume confortável em fones, televisão e brinquedos sonoros;
  • ofereça pausas e afaste a criança de caixas de som, fogos e máquinas barulhentas;
  • use proteção auditiva adequada quando exposição intensa não puder ser evitada;
  • não introduza cotonetes, grampos ou outros objetos no ouvido;
  • procure atendimento para dor, secreção, febre ou infecções recorrentes;
  • mantenha vacinação e acompanhamento pediátrico conforme orientação profissional.

Depois de som intenso, zumbido, abafamento ou sensibilidade auditiva indicam exposição excessiva. Reduza nova exposição e procure orientação se sintomas persistirem.

Quando procurar atendimento rápido ou urgente?

Procure avaliação no mesmo dia se houver perda ou redução súbita da audição, ouvido muito abafado de início repentino, zumbido intenso novo, tontura importante, secreção com febre, dor forte, objeto preso no ouvido ou mudança auditiva após traumatismo craniano.

Vá à emergência diante de alteração auditiva acompanhada por fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, confusão, desmaio, convulsão, rigidez de nuca, dificuldade respiratória ou trauma importante. Em situação com risco imediato, acione o SAMU 192.

Para sinais graduais, atraso de linguagem ou preocupação da família, marque consulta sem esperar que a dificuldade “fique óbvia”. O guia do Ministério da Saúde orienta avaliação audiológica sempre que existir suspeita, mesmo após triagem neonatal satisfatória.

Em resumo

A audição deve ser acompanhada durante toda a infância. O teste da orelhinha é essencial, mas não detecta todas as mudanças que podem aparecer depois. Resposta inconsistente ao nome, atraso de fala, necessidade de volume alto e dificuldade para entender instruções merecem avaliação.

Acolha a criança, facilite comunicação e evite rótulos. Avaliação pediátrica, audiológica e otorrinolaringológica esclarece causa e necessidades. Este conteúdo oferece orientação geral e não substitui consulta nem avaliação individual.

Referências bibliográficas

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Guia para realização da Triagem Auditiva Neonatal (TAN) e seguimento assistencial. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. Acessar guia oficial. Acesso em 7 set. 2026.
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